domingo, 25 de outubro de 2009

Chuva e Frio

Há cinco minutos atrás, tocaram o interfone. Há 11 horas atrás também.

Hoje é um domingo, daqueles domingos de verão avessos. Dormi ontem de madrugada, como costumo fazer. Não sofro de insônia ou coisa parecida, meramente estou acostumado a dormir muito tarde se comparado ao horário normal de sono. Fui acordado às nove e meia da manhã pelo interfone escandaloso do prédio escuso em que moro. Levantei, ainda trôpego, para ver do que se tratava. Soltando um sonoro "alô" dos mais apáticos ao interfone, ouvi uma voz feminina do outro lado, falando sobre mensagem da bíblia e se eu teria algum tempo para ouvi-la. Agora, e isso é importante, não me entenda errado: já atendi várias vezes a esse tipo de apelo. Me interesso sinceramente pelo que os outros têm a dizer. Mas das vezes que atendi o chamado daqueles que vieram praticar proselitismo em nome de Jesus, ouvi palavras atrás de palavras sobre apocalipse, inferno, deus de amor, deus de justiça... e fiquei calado por todo o tempo. Não que eu não quisesse falar - adoro falar sobre religiões e tenho genuíno interesse por todas elas - o problema é que o proselitismo não se interessa pela sua opinião. O proselitismo quer que você se cale e aceite. O proselitismo é uma forma velada de dizer que sua crença é superior à crença alheia. O proselitismo, com o perdão da palavra, é uma merda.

Então, por essa e inúmeras outras razões, disse "hoje não, obrigado" cerca de três vezes para a mulher que não conseguia ouvir minha voz certamente estranha um momento após acordar. Há também o fato de eu conhecer muito bem a bíblia, obrigado. Minhas passagens preferidas são Mateus 16:26 e Lucas 22:10. Meu livro preferido é o apocalipse - isso mesmo, aquele que foi incluído na Bíblia depois da maior parte dos livros do Novo Testamente e que é provavelmente o livro mais simbólico de todos. E não, não acredito que o mundo vai acabar.

Almocei e depois de algum tempo um bom amigo passou por aqui (tocando o estridente interfone), chamando-me para aproveitar a chuva e caminhar sob ela até onde desse vontade. Fomos, até onde nada se via além de pasto. Vimos pássaros tão diferentes que mal acreditávamos ainda estar dentro dos limites urbanos. Quando voltamos no que pareceu ser uma caminhada de quarenta minutos (só a volta), já estávamos encharcados. Somando isso ao vento que soprava constantemente, o resultado foi único: frio. Voltei para casa, tomei um banho com o chuveiro na posição "verão" - o que não impediu o chuveiro de derramar água quente o suficiente para a melhor sensação de choque térmico que já tive em minha vida.

Foi então que, há cinco minutos atrás (agora dez), ouvi um interfone vizinho tocar. Um tempo de silêncio, sinal da primeira rejeição. O segundo escolhido foi meu interfone. Estridente como sempre, o primeiro sentimento que me evoca é a raiva. É inevitável, tenho a mesma sensação com o telefone. Ao interfone, um sujeito com a voz de maior auto-piedade que já ouvi, dizia estar morrendo de frio e estar encharcado, com a chuva que ainda cai lá fora. "Não quero dinheiro, não quero nada, só preciso de um agasalho, por favor moço!". Apesar de minha natureza desconfiada e do estranho e prolongado discurso, pensei comigo que há alguns agasalhos aqui que provavelmente nunca usei na minha vida, mesmo São João sendo uma cidade fria como é. Peguei então um agasalho, desci até o térreo e entreabri a porta no escuro, para ver um homem branco, de estatura baixa, barba por fazer e uma tatuagem com o nome "Jesus" no braço esquerdo. Minhas únicas palavras foram: "Aqui, o agasalho". O homem agradeceu e seguiu seu caminho.

Resultado: Em um dia, aprendi melhor com um pedinte do que com o proselitismo que, dizem por aí, vai "salvar o mundo". Eu espero, sinceramente, que gestos como esse substituam as conversas sobre um deus tirano e bipolar que ama seus filhos enquanto os atira no inferno.

Mulţumesc şi la revedere!

sábado, 1 de agosto de 2009

Nemo - Nihil

Parto agora para uma jornada da qual não voltarei. Adeus.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Pra Sempre Vulneráveis

Dessa vez não vai ter foto. Também não vai ter uma introdução decente. Provavelmente não vai ser um texto muito longo também. Assunto recorrente, sabem como é. Coisa que eu já falei aqui antes (como quase tudo que é falado nesse espaço quase inútil). Falei antes sobre adoecer. Sobre tornar-se frágil.
Quero falar sobre isso de novo, de uma maneira diferente. Não sei se todos sentiram isso durante a pré-adolescência. Sabe quando a gente, lá na nossa quinta série, olha pr'aqueles garotos mais velhos, do ensino médio, fazendo suas badernas e bagunças, gritando pelos cantos como quem tem a maior confiança do mundo? E a gente sente inveja, porque é tão frágil e vulnerável que só pode fingir ser forte. Aí se faz de forte na esperança de que um dia isso se torne verdade, quando também estivermos no ensino médio gritando pelos cantos. E então descobrimos que não importa a idade que tenhamos: somos sempre frágeis. Descobrimos cada vez mais que a atuação tem que ser mais e mais forçada, porque as pessoas estão descobrindo que não existe ninguém cem por cento seguro de si... que todos têm suas fraquezas, que todos têm momentos ruins...
Vai ficando desesperador. E o adolescente cultiva a esperança de mudar, quando se entra na vida adulta. Mas não muda. E o adulto cultiva a esperança de achar paz, na velhice, pra que não tenha preocupações de sustentar famílias e afins. Mas o velho descobre que o mundo é cruel e seu corpo já não lhe pertence. O velho cultiva esperança na morte, em deus, no caixão, na terra. E o verme desesperado rói a carne.
Sabe, não era pra ter esse climão mórbido. Mas é patético. C'est pathétique. Precisamos nos lembrar todos os dias da impermanência (Anicca), para que possamos humildemente sorrir e admitir: "Sim, sou frágil. Mas minha mente está em paz". Quem se curva humildemente perante o vendaval, permanece firme em suas raízes. Quem afronta, é arrancado, como o arrogante carvalho.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Vento e a Fúria


Há um tempo atrás, tive uma conversa extremamente esclarecedora com meu primo Lucas, uma das pessoas que reconheço como mais sábias - daquelas que estão sempre pensando no bem, na cordialidade e na paz em primeiro lugar. Aposto que se ele chegar a ler isso, vai humildemente recusar o elogio. Haha
Continuando, falávamos sobre a raiva. Li um conto certa vez que utilizava uma metáfora maravilhosa: Um homem que ia mudar-se de oásis no deserto, resolveu carregar seu camelo com suas coisas. Apesar da quantidade excessiva de objetos pessoais, o camelo resistiu bravamente com todos os objetos em suas corcovas. Foi então que o homem, pronto para partir, lembrou-se de uma bela pena azul que havia herdado de seu pai, uma última lembrança. Resolveu levar a pena consigo e colocou-a em cima do camelo. As pernas do animal tremeram e ele despencou no chão, desmaiado. O homem pensou "Mas o camelo não aguentou apenas uma pena?".
Muitas vezes, ocorre assim conosco. Fazemos brincadeiras leves que podem ser ofensivas - em situações normais nem nos ofenderíamos, mas essa brincadeira pode ter sido a gota que fez transbordar o balde d'água. Por isso, é muito importante que se cultive a cordialidade e calma, sempre.
A conversa que tive com meu primo abordava esse tema - a raiva, especialmente a fúria, o momento de explosão. Meu primo me dizia que sendo a raiva natural, é difícil dizer até onde ela é prejudicial e até onde devemos nos permitir expressá-la. O questionamento era se é necessário reprimir esses impulsos.
Respondi meu primo com uma metáfora que considero válida: há várias formas em que o vento pode soprar. O furacão pode ser natural, mas sempre causa estragos. Se existem alternativas ao furacão, que possamos então ser suaves brisas. Quando deixamos o furacão superar nosso temperamento comum, somos fracos. O furacão pode parecer forte, mas os frágeis juncos que se curvam perante ele permanecem inertes, inalterados. O furacão pode parecer forte, mas forte é aquele que tem capacidade para construir, para resistir às pressões externas e ser sábio para selecionar aquilo que deve aprender.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Crescer, Adoecer, Encolher


Um dos sentimentos mais mistos e paradoxais que existem é a nostalgia. Não se sabe dizer se faz bem ou mal, se traz alegria ou tristeza... sabe-se apenas que lembramo-nos melancolicamente de momentos da infância, ou até de um passado mais recente. Mas o foco aqui é a infância. Muitos dizem ser a melhor parte da vida, mas a vida não tem partes nem é melhor ou pior. Ela simplesmente muda.
Quando estou prestes a agir de maneira que sei que não trará bons frutos, tento lembrar-me da criança que fui. Ser criança não exige nada - não exige carros, roupas bonitas, corpo sarado etc. Os adultos é que costumam transformar a infância num circo. Mesmo assim, ela continua intocável, ignorante às idiotices da vida adulta. A criança só exige amor e cuidados. O resto se resolve.
Quando eu era criança e adoecia, lembro-me de minha mãe fazendo todo aquele ritual - sopas, água de côco, biscoitos de polvilho, cama e às vezes gatorade! Cama o dia inteiro, desenhos animados, filmes repetidos e cobertores. Algumas vezes, uma corrida ao banheiro para regurgitar - sim, tinha uma parte ruim - mas de qualquer forma, a situação era bem diferente. Geralmente quando adoecemos, lembramos de como é bom estar saudáveis. Na infância, isso ocorre especialmente num dia de verão com seus amigos nadando na piscina ou na praia.
Sempre que adoeço, sinto como se estivesse voltando à infância. Não acontece muito do que acontecia quando eu era mais novo, especialmente porque moro sozinho. Mas quando adoecemos, parecemos nos dar o direito de ser mimados e ficarmos quietos.
Quando adoecemos, ficamos bem mais inofensivos, menos agressivos... A doença é um ótimo lembrete do quão frágeis somos.

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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Liberdade

Nosso entendimento de nós mesmos ainda é extremamente infantil. Achamos que nos conhecemos bem, mas estamos sempre nos surpreendendo com a maneira com que nossas paixões nos impulsionam de modos diferentes. Fala-se numa pré-suposta liberdade, mas quão escravos somos sem nem nos darmos conta? John Zerzan disse certa vez, que "Nossa liberdade se limita a escolher entre as marcas A e B, esse é nosso conceito de liberdade". Alguém ainda mais feliz disse que nenhum escravo é pior do que aquele que pensa que é livre.
Diversas vezes vi pessoas questionando a ética, perguntando se alguém que faz tudo de acordo com definições morais não estão presas a seus códigos de conduta. Aparentemente, decidir racionalmente aquilo que se deve ou não fazer, para estas pessoas, é estar preso. Segue-se então um discurso sobre "vontades" que estão sempre ligadas às paixões e impulsos da mente. Bem, na minha sincera opinião, ninguém está mais acorrentado do que aquele que segue todos os impulsos da própria mente. Temos a ilusão de que nossa mente pertence a nós e somente a nós, mas ela pode ser mimada e tem praticamente "vontade própria". Obviamente, na definição psicológica isso não é nossa mente per se, mas a área dos desejos. Segundo uma representação antiga, a mente é como uma carruagem puxada por dois cavalos: Um domesticado e bondoso (a razão) e outro selvagem e teimoso (os desejos). Domar os desejos não é tarefa fácil, mas só assim se deixa de ser escravo.
Atender os desejos assim que eles aparecem não é liberdade. Afinal, é liberdade quando uma pessoa que quer emagrecer se empanturra de coisas que engordam? Afinal, a vontade racional desta pessoa é tornar-se magra, mas seus desejos, teimosos e imediatistas, pedem pelo prazer do mundo gourmet. Não por acaso, em várias passagens da filosofia oriental e algumas da ocidental, encontra-se a definição do "eu" como o maior inimigo que podemos encontrar ao longo de nossas vidas. Sim, isso é uma verdade, pois quem mimar o ego como se este fosse uma criança, passará constantemente pelas intemperanças da vida esperneando e esperando que alguém atenda suas demandas. Porém, ao contrário de nós mesmos, as outras pessoas não estão dispostas a sanar nossos desejos de pronto. Afinal, a ilusão do Samsara nos torna cegos para nossa condição verdadeira, criamos uma imagem do eu e dos outros - uma imagem fixa que não condiz com a realidade.
O Buddha, há 2,5 mil anos atrás, ensinou a necessidade de disciplinar o que chamava de "macaco louco". A mente indisciplina, para o Buddha, é como um macaco louco que pula de galho em galho, importunando outros animais e sempre insatisfeito. Como foi-me ensinado por meu Mestre, o Ven. Sunan Sunantho, o macaco louco que pula de galho em galho é presa fácil para um caçador. É facilmente avistado e morto com um tiro. O caçador é a representação básica das intemperanças da vida. A mente despreparada é presa fácil para elas, sujeitando-se à tristeza e desapontamento com freqüência.
Segundo O Iluminado, as paixões, apegos e similares, são a origem de todo o sofrimento no mundo. Sofrimento é uma tradução um tanto quanto mal-feita. No original, dukkha é tudo aquilo que provoca desconforto na mente, torna-nos inquietos, afins. Dukkha surge da ignorância, apego e raiva, emoções que desconcertam e tiram nosso equilíbrio. O Buddha receitou a solução, não extirpando os desejos (que sabe-se muito bem, na psicologia, é impossível e um processo extremamente prejudicial) nem mortificando o corpo, castigando-nos por conceitos abstratos de "pecado", mas disciplinando a mente para que se liberte da necessidade do apego.
"Na vida já há sofrimento demais para nos maltratarmos", disse O Buddha.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Samsara is still sweet

Talvez a maior parte dos leitores (mais uma vez ressalto, inexistentes) deste blog não saiba, mas eu sou budista. Porém, como sou natural de uma cidade consideravelmente pequena, nunca tive acesso a uma Sangha (que seria a comunidade budista), onde poderia fazer o refúgio nas três jóias, que seria, para entendimento básico dos leitores, um correspondente ao "batismo" no cristianismo. As três jóias mencionadas seriam: 1 - O Buddha (mestre, professor no caminho da iluminação); 2 - O Dharma (o ensinamento d'O Iluminado); 3 - Sangha (a comunidade budista, o templo, os alunos e mestres).
Bem, recentemente esteve aqui na minha cidade natal um monge budista malaio, hospedado na casa de um amigo meu. Já havia ouvido falar de alguns monges que se hospedam na casa de pessoas e imaginei que ele fosse ficar por bastante tempo. Depois de três dias, resolvi falar com esse amigo de manhã cedo para que pudesse tomar refúgio nas três jóias. O amigo contou-me que o monge havia partido havia pouco, o que me deixou imensamente chateado. Ao contrário da maior parte das decepções que enfrentei em minha vida, encarei essa com uma maturidade não tão usual: pensei na situação como uma oportunidade para aprender como é importante agir e fazer as coisas assim que possível, sem alimentar ilusões de que vamos recebê-las num momento ou em outro, ou mesmo que podemos desperdiçar oportunidades crendo que elas nos esperarão.
Após o evento ocorrido na manhã, resolvi sair para conversar com um amigo. Ainda não tinha bem em mente quem procuraria, mas logo após ter passado na padaria para fazer um favor à minha irmã, pensei em F., um amigo de infância. Encontrei-me com ele em sua casa, onde falei por alguns momentos com seu pai. Logo em seguida, sentamo-nos à mesa eu, F., o irmão de F. (também um grande amigo) e sua avó. Conversamos por muito tempo, até que o entardecer já se findava. A conversa muito me animou, além do lanche excelente (que quebrou um jejum que se estendia desde que eu havia acordado) que levantou meu ânimo.
Voltando para casa, recebi uma ligação, em que uma amiga me convidou a assistir um filme. A noite terminou comigo e mais três amigos assistindo a um filme que há muito desejava ver. A importância desses eventos quebra uma superstição que eu tenho desde pequeno, em que "se um dia começa ruim, também termina ruim". A conclusão que pude tirar disso tudo é bem simples: perseverança e bons amigos são essenciais.