terça-feira, 30 de novembro de 2010

Céu


Hoje, eu fiquei deslumbrado com o céu.

Na verdade, qualquer um que olhasse veria que não há nada demais nele. Era um céu azul, daqueles fugazes que temos entre as chuvas torrenciais e frívolas do verão, com algumas nuvens brancas de contorno grosso, ressaltadas pela luz do Sol quase poente. Esse tipo de beleza inexplicável, pouquíssimo funcional, que fascinou Sócrates e tantos outros, em geral não nos salta aos olhos. Ela pertence ao lugar-comum, é aquilo que vemos diariamente e, incrivelmente, não nos damos conta de seu esplendor. Da ilusão do infinito, do mundo que nos observa de volta.

A verdade é que, por um momento, um lapso momentâneo de lucidez, nós podemos compreender o porquê de tanta devoção ante uma tela tão comum: essa sensação de conseguir abraçar o mundo, de estar como Nut, que para os egípcios, deitava-se sobre o mundo e guardava cada um dos homens e mulheres em suas estrelas. Se pudermos, por um breve segundo, compreender o tamanho do infinito que formalizamos tão categoricamente, então poderemos compreender que há esperança em cada gesto que nos leva a seguir com vida, diante de um mundo que nos parece tão hostil.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Iniqüidade e a Sombra

Eu olho nos olhos de todos os outros, todos os meus iguais. Eu vejo o pesar nos olhos de soldados chineses, vejo a obediência cega. Eu vejo os olhos liqüefeitos das mães que perderam seus filhos, vivos ou mortos. Eu observo os olhos ferozes e agudos daqueles que são a violência de toda a sociedade, a minha violência - eu vejo seu sofrimento e vejo que são instrumentos, como eu. Eu enxergo a pupila circular do ciclo de violência e iniqüidade.
Eu sou morto e meu coração pesa como pedra, pois não bate. Não bate pois não foi feito para bater, foi feito para tornar as costas aos iguais, mesmo quando sente. Eu ouço as línguas e os fanáticos que gritam os nomes do anjo da morte, que pedem, suplicam a ele que leve todos os ímpios e incréus: "Lave a terra, ó Azrael! Leve daqui todos esses reflexos pervertidos de mim!"

E assim vamos, sem sentir, ferindo sem ver, cuspindo em ambas as faces de todo aquele que as tenha.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Perdendo-se em Si

Recentemente, tenho notado meu descaso geral com tudo o que me circunda. Existe um incômodo no descaso, o desenvolvimento de um tipo de angústia que parece acusar-nos - uma pequena porção da consciência que nos diz que, de certa forma, nós estamos errados. O descaso é, além da falta de atenção plena, uma falta de motivação ou força motriz (ou talvez, má-aplicação da mesma). A começar, há meses que não escrevo sequer uma palavra neste blog que foi meu refúgio e meu espelho de reflexão íntima por tanto tempo (e também, como há pouco fiquei sabendo, já ajudou alguns de meus dois leitores e meio). Talvez esse descaso com a escrita seja reflexo de um grande movimento interior, já que é uma das minhas atividades preferidas. Porém, a maior dor que existe é sentir a angústia e ser incapaz de dissipar as sombras que a encobrem, - de onde ela vem? - turvando o bom-senso e humanidade.
Noto também que venho me afundando cada vez mais no que chamo de preguiça existencial. O problema em deixar de se importar com sua própria existência, é que perdemos também a capacidade de moderá-la: quando não nos mediamos, damos espaço para que cresçam sentimentos mal-utilizados, que disparam para todos os lados e ferem os próximos. Lembro-me de ter assistido a um pequeno vídeo do Lama Padma Samten, cujo tema eram as Perfeições (Prajna Paramita), em que ele dizia que quando nos interiorizamos na meditação antes de ir à rotina, o dia-a-dia, muitas vezes perdemo-nos no caminho. Conseguimos breves quinze minutos de paz e tornamos ao mundo barulhento, nos irritamos e perdemos toda a capacidade de moderação e de estar atento a si. Perdemo-nos em nós mesmos.
Assim, cria-se espaço para a raiva, ignorância, arrogância e desrespeito. Dos quatro, cometi três, hoje. E isso posso dizer porque estava desatento, talvez achasse ainda mais deslizes se estivesse concentrado na maneira como agi. Comecei hoje com raiva por não ser atendido duas vezes no serviço da assistência técnica da internet que assino. Perpetuei esse ciclo por atenderem, na cantina, pessoas que haviam chegado bem depois de mim. Desrespeitei dois professores hoje com minha dispersão e conversa, mesmo que fosse a respeito da aula. Fui ignorante ao ver que não aceitava meus próprios erros. Agora, fica a pergunta: por que é que, só no momento de interiorização é que percebemos esses deslizes? Por que é tão difícil levar essa percepção ao mundo externo, à vida cotidiana? Há pouco, lembro-me de ter falado com um amigo meu que raiva e ódio consomem tempo demais - não temos tempo para elas. Perceber a inutilidade dessas emoções explosivas quando só damos vazão a elas para que firam, foi um breve momento de lucidez. Trazê-lo à prática, no entanto, é um movimento diferente e talvez mais complexo.
Uma das coisas mais importantes dentro do budismo e mais difíceis de se praticar em nossas vidas, é ter a capacidade de ultrapassar a mera aceitação intelectual. Perceber que há erros no mundo, em nossos métodos, é um processo relativamente simples. Porém, se compararmo-lo à prática, veremos que o segundo processo é demasiado complicado, sem a necessária preparação e compreensão. Por isso, deixo aqui este breve desabafo e uma tela de Rembrandt: "O Filósofo em Meditação" (tradução livre, não sei o nome em português, da tela). Lembremo-nos que devemos sempre estar atentos à transformação dos hábitos e da prática. Desejo boa sorte a todos nesse processo.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Equilibrando-se na corda bamba

Às vezes, sendo bastante reducionista, enxergo a vida como tendo dois focos. Mais ou menos à maneira de Hermann Hesse, quando separa as facetas de seu personagem "Harry Haller" em o Homem e o Lobo da Estepe, um inimigo do outro e incapazes de conviver em harmonia. Este é um assunto delicado, pois trata-se de uma dicotomia antiga no mundo ocidental: a separação de dois pólos da vida entre Bom e Ruim, Moral e Imoral, Bem e Mal, Humano e Divino, Matéria e Espírito. O homem ocidental sempre se comunicou através desses pólos, atendo-se a um e maldizendo o outro. Fato é que, mesmo na filosofia oriental, existem os pólos - eles são, porém, indissociáveis e não possuem qualquer caráter benigno ou maligno. Talvez a frase que tenha definido de maneira assertiva esta colocação seja a de meu primo, Thiago, que disse: "Luz e Sombra são o mesmo - ambas em excesso cegam". Seja como for, a verdade é que esses pólos estão aí e nossa mente dotada de preconceitos e figuras de linguagem, metáforas e ícones, trata de encaixar cada uma das situações rotineiras em estereótipos. Tal atitude é necessária, seríamos incapazes de ruminar o mundo sem que o conceituássemos - seria o mesmo que tentar enxergar um arquétipo (C.G. Jung) sem seu invólucro, sua roupagem mundana. Mitos, contos e estereótipos, ou até mesmo lendas urbanas, refletem conceitos primitivos da mente humana.
Mas como ia dizendo, em geral vejo a vida como tendo dois focos: os supracitados pólos Material e Espiritual. Em geral, cada pessoa prefere um tipo de estereótipo. Enxerga como melhores pessoas as que tendem à matéria (pessoas que gostam de festas, vida agitada em sociedade, prazeres sensuais) ou pessoas que tendem ao espírito (pessoas mais introspectivas, que apreciam experiências mais transcedentais ou estímulos intelectuais). Dar preferência é algo simples, sentimo-nos melhores entre pessoas que refletem melhor nossos ideais e nossos hábitos, é aquilo que chamamos de "coisas em comum", nenhum é melhor que o outro. Porém, é possível afirmar que nenhum de nós caminha numa só via. Somos dotados do maravilhoso dom da mudança - mas com esse dom vem um dilema. Estamos constantemente nos perguntando o que é melhor para nós, qual é o caminho correto, o que estou fazendo de errado. Aqui entra a diferença entre a filosofia oriental (sem querer generalizar, óbvio) e a filosofia ocidental - no oriente, existe uma necessidade imensa de conhecer ambos os lados e aprender a trabalhar os dois. Existe um provérbio butanês que diz: "Jig ten ma pchi; dam choe ma ha" (Não comece sua vida mundana tarde demais; não comece sua vida religiosa cedo demais). E mesmo este provérbio poderia ser dito cheio de dicotomias se comparado a algo que li sobre uma pagoda na região da Índia dedicada à espiritualidade. No topo desta pagoda havia um grande afresco retratando cenas de sexo, ao que um perspicaz homem ocidental observou: "Mas vocês dizem ensinar a espiritualidade, enquanto tudo o que vejo são jovens camponeses fascinados com essas cenas de sexo". O guia indiano respondeu: "Mas é claro! E se não o fizéssemos esses pobres demônios provavelmente fariam todas essas coisas que aqui estão retratadas sem ter consciência delas!". Aí está a diferença, da linha tênue que transcende toda e qualquer dicotomia em alguns pontos do oriente - não há profano nem profanidade.
Sem mais delongas e abordando o ponto central deste texto, penso comigo. Esses pólos que estabeleço em minha vida e, creio, muitos daqueles que analisam a si mesmos enquanto seres humanos também estabelecem, parecem permear cada aspecto de nossas existências. Não só é uma realidade, como também nos modificamos de acordo com eles. Noto que há pequenos vícios que vão se acumulando quando nos atemos a certo extremo, como um desrespeito aos limites que até mesmo nós estabelecemos quando tendemos ao material, uma despreocupação tamanha que às vezes perdemos a capacidade de agir com plenitude - estar no momento - e ofendemos os outros e nossos ideais. Quando tendemos demais ao espiritual, corremos o risco de tornarmo-nos arrogantes, elitistas e excessivamente reclusos, esquecendo da importância de nossas experiências enquanto seres vivos e dotados de sentidos. Transitar entre esses dois pólos e encontrar o equilíbrio é como caminhar numa corda bamba. No momento, estamos protegidos por uma rede que nos segura ao cair, até que possamos aprender a caminhar sobre ela. Mas para chegar ao outro extremo, é preciso atravessar um longo trecho sem a rede de segurança e, para isso, devemos estar totalmente seguros e com atenção plena. Um treinamento mental e preparação espiritual - que não se resume a rituais e rotina, mas a viver o mundo e saber o que ele provoca em nós, saber o que é que faz de nós pessoas melhores e mais preparadas.
Nenhum de nós nasceu em posição privilegiada, sabendo andar na corda bamba logo de cara. O Buddha nasceu num suntuoso palácio onde satisfazia todos os seus prazeres sensuais. Tendo extraído as experiências que podia daquele lugar e vendo que a satisfação que ele o trazia era transitória e impermanente, capaz de gerar sofrimento, saiu em busca da sabedoria espiritual. Tornou-se então um asceta, mortificando-se de todas as maneiras e buscando sabedoria na negligência do mundo material. Tendo visto também que seus esforços eram infrutíferos, aprendeu vagarosamente o Caminho do Meio, o mais difícil de percorrer, mas certamente o mais gratificante. Assim tornou-se O Iluminado, aprendendo a equilibrar os paradoxos da vida e dissociando-se lentamente deles.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Crueldade do Sonhar

A psicanálise possui uma relação saudável com o sonho. Freud dizia que o sonho era a expressão simbólica do desejo e sua concretização num plano favorável, enquanto o sonhador poderia controlar outrem dentro de si e assim realizar seus ímpetos mais primitivos, suas "pulsões" (Treib, no original em alemão). Logo, o pesadelo só pode ser justamente o oposto. Alguma coisa ocorreu de errado. Os desejos foram pervertidos, calados e deformados em uma monstruosidade sem precedentes, causando angústia e suadouro, no mínimo.
O universo simbólico do homem é poderoso. Tem o poder de dissociar-se do dia vivido e transformar a noite num universo paralelo, onde o sujeito deveria ter o controle absoluto. Nele, suspende-se o lugar-comum e a realidade cognoscível. É possível estar ao mesmo tempo no primeiro e décimo-sexto andar de um prédio, desejar a vida e a morte de uma pessoa simultaneamente e transformar tabus em simples conceitos relativos. O sonho é a fronteira final - o único que diz "não" a nossos desejos é o outro. Se, em algum plano, existe um lugar onde se controla o outro, nada é inalcansável aos desejos. O homem se realiza no simples ato de desejar.
Mas algo de errado ocorre no pesadelo. Quando começa a crescer no homem a asfixia de ter mergulhado no universo do sonho, este tornou-se pesadelo. Os terrores noturnos assombram, puxando as canelas finas e frágeis aos pontos mais escuros e profundos do sonhar, restando ao homem abater-se até livrar-se das terríveis garras do pesadelo, atingir a superfície e inspirar profundamente. O alívio, o retorno à realidade. Acordar suado e com sede, com medo do que rasteja pelos cantos sombrios do quarto. Mas tudo agora é só possibilidade. Tudo agora é simplesmente "real", banal e improvável. Mas o alívio - respirar depois de algum tempo na asfixia e saber que todos os terríveis devaneios eram apenas ilusão, um truque da mente... é uma sensação indescritivelmente bela.
Como é o retorno à superfície, quando resgatamo-nos de um sonho, em que realizamos nossos desejos? Como é respirar o ar rarefeito e pesado de um quarto fechado, quando antes nos encontrávamos nos mais verdes campos? Como é voltar ao ambiente opressor da cidade e dos deveres rotineiros, quando deitávamos sob um céu azul com o Sol morno? O sonho é cruel. A mente se engana, dá um nó em si mesma. O sonho é cruel pois faz-nos retornar ao mundo insosso de súbito, faz-nos ver que o desejo ainda não foi sanado apesar da rápida visão de paraíso propiciada.
Ver-se miserável e perceber que teria sido melhor continuar de olhos fechados - aí está a crueldade do Sonhar.

domingo, 25 de outubro de 2009

Chuva e Frio

Há cinco minutos atrás, tocaram o interfone. Há 11 horas atrás também.

Hoje é um domingo, daqueles domingos de verão avessos. Dormi ontem de madrugada, como costumo fazer. Não sofro de insônia ou coisa parecida, meramente estou acostumado a dormir muito tarde se comparado ao horário normal de sono. Fui acordado às nove e meia da manhã pelo interfone escandaloso do prédio escuso em que moro. Levantei, ainda trôpego, para ver do que se tratava. Soltando um sonoro "alô" dos mais apáticos ao interfone, ouvi uma voz feminina do outro lado, falando sobre mensagem da bíblia e se eu teria algum tempo para ouvi-la. Agora, e isso é importante, não me entenda errado: já atendi várias vezes a esse tipo de apelo. Me interesso sinceramente pelo que os outros têm a dizer. Mas das vezes que atendi o chamado daqueles que vieram praticar proselitismo em nome de Jesus, ouvi palavras atrás de palavras sobre apocalipse, inferno, deus de amor, deus de justiça... e fiquei calado por todo o tempo. Não que eu não quisesse falar - adoro falar sobre religiões e tenho genuíno interesse por todas elas - o problema é que o proselitismo não se interessa pela sua opinião. O proselitismo quer que você se cale e aceite. O proselitismo é uma forma velada de dizer que sua crença é superior à crença alheia. O proselitismo, com o perdão da palavra, é uma merda.

Então, por essa e inúmeras outras razões, disse "hoje não, obrigado" cerca de três vezes para a mulher que não conseguia ouvir minha voz certamente estranha um momento após acordar. Há também o fato de eu conhecer muito bem a bíblia, obrigado. Minhas passagens preferidas são Mateus 16:26 e Lucas 22:10. Meu livro preferido é o apocalipse - isso mesmo, aquele que foi incluído na Bíblia depois da maior parte dos livros do Novo Testamente e que é provavelmente o livro mais simbólico de todos. E não, não acredito que o mundo vai acabar.

Almocei e depois de algum tempo um bom amigo passou por aqui (tocando o estridente interfone), chamando-me para aproveitar a chuva e caminhar sob ela até onde desse vontade. Fomos, até onde nada se via além de pasto. Vimos pássaros tão diferentes que mal acreditávamos ainda estar dentro dos limites urbanos. Quando voltamos no que pareceu ser uma caminhada de quarenta minutos (só a volta), já estávamos encharcados. Somando isso ao vento que soprava constantemente, o resultado foi único: frio. Voltei para casa, tomei um banho com o chuveiro na posição "verão" - o que não impediu o chuveiro de derramar água quente o suficiente para a melhor sensação de choque térmico que já tive em minha vida.

Foi então que, há cinco minutos atrás (agora dez), ouvi um interfone vizinho tocar. Um tempo de silêncio, sinal da primeira rejeição. O segundo escolhido foi meu interfone. Estridente como sempre, o primeiro sentimento que me evoca é a raiva. É inevitável, tenho a mesma sensação com o telefone. Ao interfone, um sujeito com a voz de maior auto-piedade que já ouvi, dizia estar morrendo de frio e estar encharcado, com a chuva que ainda cai lá fora. "Não quero dinheiro, não quero nada, só preciso de um agasalho, por favor moço!". Apesar de minha natureza desconfiada e do estranho e prolongado discurso, pensei comigo que há alguns agasalhos aqui que provavelmente nunca usei na minha vida, mesmo São João sendo uma cidade fria como é. Peguei então um agasalho, desci até o térreo e entreabri a porta no escuro, para ver um homem branco, de estatura baixa, barba por fazer e uma tatuagem com o nome "Jesus" no braço esquerdo. Minhas únicas palavras foram: "Aqui, o agasalho". O homem agradeceu e seguiu seu caminho.

Resultado: Em um dia, aprendi melhor com um pedinte do que com o proselitismo que, dizem por aí, vai "salvar o mundo". Eu espero, sinceramente, que gestos como esse substituam as conversas sobre um deus tirano e bipolar que ama seus filhos enquanto os atira no inferno.

Mulţumesc şi la revedere!

sábado, 1 de agosto de 2009

Nemo - Nihil

Parto agora para uma jornada da qual não voltarei. Adeus.