Hypnos & Eu

Quando aprendi a hipnotizar, aos quinze anos, os mais variados e sádicos desejos de onipotência vieram à minha mente, num turbilhão de êxtase e triunfo. Apesar de todas as inimagináveis e fantásticas possibilidades a minha frente, um empecilho reinava sobre a mesma:
Meu indireto mestre, Karl Weissmann, austríaco naturalizado brasileiro e aclamado hipnotista, fortalecia grandemente o uso da ética em qualquer situação que envolvia o "sujet" e o hipnotista. Na época, para mim, ética era dispensável. Era uma desculpa para fracos e derrotados viverem sem um medo tão grande na sociedade que se transforma a cada dia.
Apesar disso, mesmo com a passividade de um amigo que, conhecendo bem o hipnotismo e tendo ele mesmo me indicado o livro através do qual aprendi, a ética de Weissmann ainda martelava em minha cabeça.
Se, através de meu conhecimento teórico em hipnotismo, eu considerasse que Weissmann exercia grande influência sobre mim, e que a ética que ele pregava seria conseqüência de um aprendizado também subconsciente, eu estaria certo. Mas há algo além disso: desde a desvalorização de qualquer moral por minha parte, eu havia notado que isso era apenas uma casca. Nunca havia eu praticado qualquer atrocidade contra a moral, a não ser contra a moral clássica e irracional, tal como o tabu de nossa querida sociedade puritana com assuntos sexuais. Weissmann foi meu primeiro professor de ética, mesmo que através de uma arte que implica conceitos tão (erroneamente) fantásticos & onipotentes. Qualquer paranóico ou pervertido teria uma bela vontade de dominação.
Com o passar do tempo, fui melhorando como um hipnotista através da prática, mesmo que mentes desavisadas insistissem em imaginar que o estado de relaxamento que sentiam não era impressionante, tal como as demonstrações extravagantes que eu me via obrigado a fazer para provar às pessoas que o hipnotismo era real. Coisas tais como sugestões pós-hipnóticas, xenoglossia (que é na verdade um caso raríssimo) e ainda subir em um corpo suspenso em lugares impossíveis de se tolerar de forma consciente. Tudo isso era interessante para um hipnotista inexperiente, tal como eu o era, mas não é interessante com o passar do tempo, quando o mais atraente é explorar de forma agradável áreas da mente humana que permaneciam ocultas em plena consciência.
Através da prática, percebi que muito me utilizava da ética apesar de muitas vezes tentado a criar situações que poderiam tornar-se constrangedoras tanto para o "sujet" quanto para mim, o hipnotista. Ainda assim, nunca atravessei nenhum valor moral ou ético de cada "sujet". Mesmo porque, como logo descobriria, isso é quase impossível. Em verdade, o Superego, ou vigilante da mente, que observa e guarda todos os nossos valores morais que limitam nossas ações tanto mentais quanto físicas, nunca deixa de estar ativo - ele está lá, relaxado porém vigilante, esperando para que seja cutucado até entrar em ação. O "sujet" em verdade é que se torna capaz de operar todas as coisas fantásticas que vemos acontecer durante uma sessão de transe hipnótico, já que o hipnotista é, ao contrário do que imaginam, meramente um instrumento. O instrumentista é que rege seus sons.
Sendo assim, emergi da plena ignorância ética para mergulhar em um novo conceito: a mente em estado de superconcentração (transe hipnótico) está em pleno funcionamento e impede que outros estímulos externos desviem sua atenção, de forma a despertar um potencial absurdo, desconhecido conscientemente - e ainda assim, existe a ética, firme em nossas mentes, mesmo no estado de transe mais profundo. Se somos realmente ignorantes perante tantos mistérios, como afirmam os agnósticos, não seria correto dizer que o caráter crucial para a criação de uma realidade pessoal seja a própria crença? O poder que a mente tem, de alterar o mundo, seja individual ou coletivo, é notável. Assim sendo, valores devem ser estabelecidos não para subjugar e castrar, como fizeram nossos nobres colegas cristãos, mas para estabelecer diretrizes para o indivíduo.
Hypnos ensinou-me a enxergar o mundo de outras maneiras. A mais crucial delas - de olhos fechados.
