sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Satori

Satori é uma palavra que define uma breve iluminação, compreensão absoluta de certos aspectos da mente/vida/espírito, que dura pouco tempo. Costuma acontecer enquanto meditamos, ou quando observamos silenciosamente a natureza, ou mesmo quando estamos fazendo comida. O satori tem sua natureza na "alma" humana. Coloco a palavra "alma" entre aspas, porque como os budistas, creio que a alma não é uma porção imutável do ser humano.
Hoje, agora há pouco, tive um satori. Enquanto ouvia uma música tocada em shakuhachi (um tipo de flauta japonesa), deitei-me no escuro e imaginei várias cenas. Vi uma senhora lavando suas roupas num rio, um homem plantando sementes em terra úmida, e um garoto brincando com seu cão. Todas essas coisas expressam algo, mesmo que silenciosamente.
Já repararam quanta merda sai da boca do ser humano? Você fala pra ofender, fala mal dos outros, e se cala quando pensa em elogiar alguém. Nos calamos por vergonha, por conveniência, ou qualquer outro motivo, nos momentos em que mais devíamos falar. Na minha opinião, seres humanos falam demais. Certa vez disse ao meu primo, que provavelmente gostamos tanto de animais porque eles não se comunicam conosco em nossa língua. Assim, não nos ofendem, não mentem, não induzem e não manipulam. Seres humanos fazem tudo isso, e raramente utilizam sua fala para o bem.
Notem, quem fala por nós não é nossa consciência, mas nosso egoísmo - quando respondemos nossos pais, quando somos prepotentes, quando respondemos a quem nos ofendeu. Eu peço, apelo a você que lê esse texto: pratique o silêncio. Quantas vezes já ficaste calado quando te ofenderam? Quantas vezes concordou com seus pais em silêncio ao ser reprimido? Quantas vezes teve paciência para ouvir aquilo que seus amigos sentem - simplesmente ouvir?
O silêncio é precioso. Aqui está meu apelo: Seres humanos, parem de se expressar! Todos nós podemos fazer muito mais de boca calada. Sorrisos, abraços, beijos - e coisas ainda mais contemplativas, como observar as estrelas que brilham à noite, as gotas de chuva na janela, os pássaros que cantam ao Sol. Por favor, antes de pregar o egoísmo e excesso de expressão, façam silêncio.

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sábado, 23 de fevereiro de 2008

Um Breve Devaneio

Hoje eu fiquei pensando como é divertido falar mal de estereótipos. Todo mundo adora, notem. Os emos falam mal da massa, a massa fala mal dos "marginais" (no sentido de estar à margem do convencional, nesse caso), os marginais falam mal de si mesmos - góticos falando mal de skinheads, skinheads falando mal de punks, punks falando mal de todo mundo, e todo mundo falando mal de emo. É um ciclo, e dos mais reduzidos, comparado à vastidão multicolorida e bizarra de nossa sociedade. E sinceramente, esse monte de cores me cansa.
Qual é, nossos egos são tão frágeis que nós precisamos inventar estereótipos, idealizações, utopias, tudo isso só pra se sentir "gente", sentir que está vivo... A troco de um idealzinho barato vendido a varejo pra cada um de nós, os imbecis. Enxergamos todos no modo em que eles estão separados de nós, mas quer saber o que nos une? Todos nós somos imbecis, do tipo que se engana com imagens de tv, perfis toscos no orkut, e propagandas de aromatizador de carro que promete dar alguma graça à sua vidinha medíocre.
Graças a esses divinos e divertidos "rótulos" (sempre que eu uso essa palavra, imagino o rótulo da Helmann's. Por que será?), suas ações são automaticamente classificadas dentro de qualquer idiotice que esteja mais próxima. Chorou vendo filme? É emo. Gosta de programação? É nerd. Moicano na cabeça? É punk. Gosta de filmes suecos? É indie. Gosta de Augusto dos Anjos? É gótico. Enfim, é tudo tão variado, todo mundo tão diferente, sabe.
Uma das coisas que eu mais gosto de repetir: nenhum de nós é especial. Todo mundo é cinza, só muda o tom. Portanto, vai balançar essa bunda com calça da gang em outro lugar, vai esfregar essas canelas finas com jeans apertado em algum café "blasé", vai "fritar" na sua rave que eu tô muito bem aqui, indo na padaria da esquina de pijama e com espinhas no rosto, muito feliz.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Contos Descontentes - 2

O primeiro conto dessa série faz muito bem a característica geral daqueles que escrevi. Tenho uma tendência à personificação de conceitos e sentimentos, que acabam se tornando personagens.

Vida é Força

“Vida é força”, dizia a sombra esguia em seus murmúrios inaudíveis. “Isto não deve ser contestado, me parece lógico o suficiente”. Falava para si mesmo antes que para o mundo. Não que alguém ali fosse ouvi-lo, sua vida ínfima como a de um inseto. A ignomínia de toda a sociedade regurgitara sua mais macabra criação: A “colméia”. Os seres que lá viviam pareciam humanos, mas pouco mais eram que sombras de tudo aquilo que um dia já foi humano. ético. Pouco importava, nem mesmo sabia a sombra se queria fugir da mesmice corrupta que era a Colméia. As únicas melodias presentes no deserto metálico, cinza e pálido como poeira, eram os tiros que pareciam ecoar por toda a cidade, destruindo vidas, criando um manto de almas vingativas pelo negro véu que pairava sob o que um dia chamaram de “céu”.

Ah, mas havia mais ali do que captava a pobre mente dos assassinos. Todos eles, compondo sua mortal sinfonia de armas de fogo, lâminas afiadas e dentes rangendo, mal podiam escutar a beleza que havia nos corredores abandonados pela presença. Ali ele se estendia, silencioso, como quem quer aproveitar a canção, mas ainda assim, poderoso, sua postura sempre ereta e pouco acolhedora, de quem já não se importava com o que havia no exterior de seu próprio corpo. Exaltando-se ao som da sinfonia, entoou teatralmente: “Vocês vivem e têm alguma força para dividir. Mas e se estiverem mortos? Podem ter vivido uma ‘boa’ vida, mas vocês não possuem poder! Serão escravos para a morte”. Os ruídos pareciam responder seu chamado, resultando no poderoso clímax da sinfonia. “Dá-me... Vosso veredicto...”, continuou a sombra, “Virão a findar suas vidas em nome do espectro de outras, talvez maiores, talvez tão mais impotentes e ínfimas... Ou virão a prevalecer, entoando o cântico da vida até que vossas cordas vocais sejam gastas pelas areias do tempo?”.

Ao som dos chicotes se arrastando, alertou-se a sombra. Vinham em sua direção, no beco escuro, onde jamais sentiria medo. “Ótimo dia para morrer”, pensou satisfeito. Tomou posição de defesa, encarando o desconhecido comensal. De braços estendidos, aproximou-se a figura aterradora, mas veio vacilante, até tropeçar nos próprios farrapos e cair de joelhos perante a jovem e esguia sombra. “A sorte sorri para mim”, e de fato, sorriu a sombra. Entoou então a sentença de morte daquilo que viria a ser seu comensal: “Suas últimas palavras, estranho, faça-as valer a pena!”, disse ao sorrir diabolicamente. Sem deixar o menor vestígio de medo, a figura bradou: “Daquilo que é vida, eu demando canções de morte, canções que pude ouvir à distância enquanto as chamas espalhavam a destruição em meus passos. Eu sou o que ainda resta do que um dia foi o combustível da paixão pela vida, e exijo saber sobre aquilo que me aguarda, antes que eu deixe este mundo, meu destino inevitável”. A sombra retirou seus gestos agressivos, e foi sucessivamente substituindo por uma grande reverência; “Às suas ordens, meu caro. Pode me chamar de Pecado”. A vida se levantou por uma última vez, prestes a começar sua marcha final, quando murmurou ao Pecado: “Ficaria grato se me contasse aquilo que me espera além dos muros negros que bloqueiam a Colméia, Pecado”. Entretido, Pecado pôs-se a entoar seus versos, versos que um dia dariam a sentença para a cidade macabra e seus habitantes: “Que ocorre quando a vida se finda, o que há do outro lado? Os portões do além não se abrem para aqueles cheios de vida e prazer ainda pulsantes, que foram perdidos de forma dramática neste mundo que chamamos de ‘Colméia’. Suas vidas tornaram-se vazias, neste mundo em que vivemos, seus pecados me criaram e agora o prazer que sentiam será eternamente meu, ao ouvir os lunáticos bradarem suas demências de forma caótica, e espalhar sua linhagem corrupta por todos os becos escuros e infestados de pestes. Logo, não haverá nada senão cães se dilacerando com doçura, paixão queimando suas vítimas de forma dolorosa. Quando este tempo chegar, eu estarei aqui para tornar este lugar macabro em um deserto de cinzas e fogo, onde hão de queimar todos os que ousaram lutar contra a vida”. Após seu grande discurso, Pecado parecia satisfeito consigo mesmo, como que tivesse dado o veredicto desta terra, como se sua verdade fosse irrefutável. O último suspiro da vida se levantou naquela grande figura que arrastava os chicotes e farrapos, parecendo insatisfeita. Não se demorou a encontrar um contra-ponto, então foi logo dizendo: “Achas, Pecado, que a chama que alimenta vosso ódio e vosso frágil ego é diferente da que alimenta o meu poder? Pois saiba que as chamas que crepitam pelo seu caminho são justamente aquelas que alimentam a paixão destes seres pela vida! Se acreditares que o humano tornou-se agressivo e por isso está fadado à destruição, pense novamente: O predador apenas selecionou uma nova presa, e essa presa foi sua própria espécie. A morte é apenas parte natural da vida, e aquilo que há além não passa de lenda. Estes seres morrerão, mas o mundo negro que predizes é apenas aquilo que estes seres escolheram para seu destino: Sua paixão pela vida não mudou, não é diferente. Por esta razão, minha morte não passou de mera quimera. Dizes ser aquilo que corrompe a humanidade? Eu vos digo que és nada mais que a raiz de todas as quimeras. Mas eu... Eu sou eterno”. Virando-se de costas para deixar Pecado com seus pensamentos, a Vida recuperou mais do que seu último suspiro, mas o prazer de estar conhecendo seu novo e cinzento lar.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Contos Descontentes - 1

Começo, a partir de hoje, a publicar contos que ao longo de dois anos venho escrevendo. A compilação ainda está incompleta, mas seus aspectos individuais clamam por exposição. Eis o mistério do ego. O primeiro texto é apenas um prefácio para as coisas vindouras, nada além.

Pequeno prefácio

“Tente sentir que está vivo!” – diga essa frase a alguém, em tom imperativo. Diga isso para as pessoas sorridentes, e verá os sorrisos desaparecerem. Diga isso a um angustiado, e ele vai sorrir. Diga isso a qualquer outro, e eles vão deitar-se num coito violento e rápido, que talvez desvie a atenção de todos aqueles que observam por fora a expressão vazia de alguém que já terminou de fazer o que era preciso. De alguém que não tem mais objetivo. E quando olharmos uns para os outros com nossos rostos incoerentes e com buracos em nossos corpos, nenhum de nós saberá a resposta, porque os únicos orifícios que nos foram tapados, foram ouvidos e boca.
“Seja quem você é!” – disseram os tolos! Oh, como são belos os incrédulos! Como cobrem seus orifícios tão bem! De cimento áspero são feitos, digo eu! E não ouso afirmar que são eles aqueles que mais procuram dentro de si mesmos o caminho fechado com cimento, com a pergunta ainda mais incrédula, “quem somos nós?”. Pois a pergunta não crê em si mesma, e no caminho para a evolução, extirparam a dúvida e cobriram-na com certezas imbecis e inflexíveis!
“Sê forte!” – dizem os iludidos! Pois fomos nós quem negamos a flexibilidade e beleza do pequeno junco, para que em nossas formas de carvalho não mais fôssemos arrancados pela tempestade! Nós destruímos a tempestade! E seus ventos já não beijam nosso rosto com suave brisa, mas se agitam com fúria dentro de cubículos! “Mate para viver!” – dizem os dedos que puxam as cordas! Pois o circo feito pelas mortes diárias é então aquele que mais diverte os inatingíveis! “Sê cego, sê estúpido!” – adoçam então estas palavras com grandes anúncios de glória banhada em vermelho-sangue, para que nós não tenhamos a consciência de que se puxarmos as cordas, eles também caem, de um lugar muito mais alto! “Seja feliz! Assim podemos mantê-los por muito tempo, conformados com a situação pela qual passam!”.
O grupo de zumbis assentiu com a cabeça, e ficou feliz em ter aprendido algo novo.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Ignus Fatus


Observando atentamente ao fogo, e seus fascinantes movimentos, nossa curiosidade é imediatamente aguçada. Não é sólido, não é líquido... Alguns dizem que é gás. Sua mão pode perfurá-lo, mas ele transmite um calor intenso. E assim é tudo aquilo que é metafísico.
A pergunta perpétua de cada indivíduo muitas vezes é informulável, tanto quanto intragável, considerando que nunca se acha uma resposta satisfatória ou mesmo tangível. O ser humano, o ser consciente, luta desesperadamente para descobrir porque luta. "Serão meus socos em vão? Serão as feridas em meu punho sacrifícios desperdiçados?" - e assim, cai em seu poço, desgostoso com as dúvidas. Antes, observávamos o céu - e o céu nos observava. O Sol e a Lua eram seus olhos, e a estrelas, brilhantes cravejados em matéria negra - descrevendo nosso destino. O mundo era o homem, e o homem era um com o mundo. Não era necessária lógica especial que desse sentido à existência, as próprias estrelas gritavam seu amor pela humanidade e por suas lendas gloriosas, seus sonhos, sua comunhão com seus próprios conceitos.
Tempos depois, as coisas mudaram. Descobrimos que no espaço, as estrelas não estão mais próximas. Pelo contrário, se afastam cada vez mais. Descobrimos que o Sol não nos observa, mas nos prende a uma órbita repetitiva que nos joga diariamente em pontos diferentes do vazio, para que possamos observar amargamente o quão pequeno somos diante de outras entidades. Planetas maiores, o Sol - e até mesmo o Astro-Rei torna-se mínimo diante de outros astros. Aldebaran, Pollux, Antares, Arcturus... todos eles denunciam nossa pequenez.
Para satisfazer o imenso vazio que então nos contagiava com essas descobertas, o mundo tornou-se um lugar aparente, onde nossas certezas valem menos que um centavo. Pessoas como nós precisam de luxos descartáveis, como assentos acolchoados, mesas personalizadas e piscinas que nunca são usadas, para preencher o infinito buraco negro que suga os bens de consumo - os escudos que utilizamos para que o buraco não sugue nossa sanidade.
Ao meu ver, aqui está a verdadeira questão: será que essa sanidade vale tanto a pena? Até o Sol, da minha perspectiva, parece frio e distante. Se não temos respostas, de que vale essa sanidade que nos deixa ainda mais vazios? De que valem os conceitos, paradigmas e tudo aquilo que fomos ensinados para sentarmo-nos em nossas cadeiras, tomarmos nosso refrigerante diet e preocuparmo-nos vinte e quatro horas por dia com o orçamento mensal? Se ninguém lhes contou o sentido da vida, meus caros, eu lhes conto agora: O sentido é denunciar tudo aquilo que não faz sentido, e rejeitá-los com todas as forças e paixão que ainda resta por nossas vidas! Gritar para si, que somos seres humanos, e nossa vida tem valor!
Bill Hicks, costumava terminar seus espetáculos da seguinte forma: "A vida, é como um passeio num carrossel. Quando você começa o passeio, pensa que é real porque esse é o poder de nossas mentes. O carrossel sobe e desce, anda às voltas, tem emoções fortes e é brilhantemente colorida. Há muito barulho, e é divertido por um bocado. Alguns já andam nessa viagem há algum tempo e começam a se questionar: 'Será isto real? Ou é apenas uma viagem?'. Outras pessoas lembram-se, viram-se para nós e dizem: 'Não se preocupe, não tenha medo! É apenas uma voltinha!'. E nós matamos essas pessoas - 'Calem-nos, eu investi imenso nessa viagem, calem-no!' - 'Olhem para minha cara nervosa, olhe para minha conta bancária e família, isso tem que ser real!'. É apenas uma viagem. Mesmo assim, sempre matamos essas boas pessoas que nos dizem isso, já reparou? E deixamos os 'demônios' tomarem conta. Mas não importa, porque é apenas uma viagem, e podemos mudá-la sempre que quisermos. Com apenas uma escolha. Sem esforço, sem trabalho, sem profissão, sem poupanças. Só uma escolha: entre o medo... e o amor."