Falar muito ou falar nada: qual dos dois diz menos? Se eu terminasse meu texto por aqui, ficaria aquela coisa meio "decifrem-me", e não é isso que eu quero. O que é necessário ser falado já foi, é simples assim.
Não dá pra ficar fingindo que há algo além disso, porque não há. Não que o intelecto não possa se expandir mais - ao meu ver, não há limites para isso. Mas não é possível sentir mais nada.
Prazer, amor, dor, sofrimento, terror, fome, satisfação, êxito, serenidade... Tanta coisa cabe em Um. Indivíduo. Os cães também o são, ao contrário do que meu professor falou. Não é preciso saber a natureza de algo para que se possa provar sua realidade - esta tirou férias. Eu não sabia o que era um cavalo, aos dois anos - o que não o tornou menos real quando o vi. Seus sentidos são as únicas armas que você possui para provar que as coisas são reais.
Meu intuito não era este. Não quero falar sobre isso. Só quis começar pela consciência individual.
Relatando um fato recente: Eu e meu bom amigo Meteus nos encontrávamos entediados em mais uma semana de aulas maçantes no cursinho, até que, cerca de seis e trinta e quatro, ligo para ele. "Que cê tá arrumando?"; "Cara, vou comer alguma coisa e ficar à toa. Por quê?"; "Vamos dar uma saída. Tô cansado de ficar em casa".
Fomos nós à Planet Music (uma das poucas franquias respeitáveis, diga-se de passagem) olhar alguns CDs, DVDs, livros e filmes, não necessariamente nessa ordem. Depois de muito observar e bater papo com um cara que não conhecemos na seção de filmes "cult" (oh, como somos intelectuais), resolvemos tomar um café e comer pães de queijo (ainda somos mineiros, né). Jogando conversa fora, o diálogo começou a ficar filosófico. "Nós não precisamos de 70% das coisas que existem hoje. Ao meu ver, as áreas de desenvolvimento tecnológico importantes são poucas, como saúde. Gostaria de um retrocesso total da civilização como conhecemos," - disse eu. "Pois é, mas acontece que o desenvolvimento tecnológico em geral é uma rede de áreas separadas, porém interdependentes entre si." - Meteus salientou um ponto crucial. "Verdade, verdade. Porém, um retrocesso não necessariamente implicaria a perda da tecnologia como um todo, mas representaria um avanço de consciência - já que descartaríamos luxos obtidos por certas áreas desse mesmo desenvolvimento. Mas quero falar sobre o monopólio da tecnologia. Note, que nos países que desenvolveram tecnologia mais cedo, e que sobre ela criaram seu monopólio, há uma constante busca para a versatilidade da vida moderna. Aqueles que possuem as soluções simples para situações consideradas incômodas, mas que fazem parte do nosso cotidiano, como andar a pé, ou sentir calor, acabam por castrar nossa criatividade. Que há para descobrir? Não há empenho para um desvendar da vida, pois os donos da versatilidade já desvendaram tudo - e nossa motivação, que devia ser direcionada à criatividade e descoberta, resume-se a trabalhar não para a melhoria geral das relações humanas, mas para o acúmulo de capital para que se possa obter soluções versáteis para a vida moderna - que nos leva ao lixo tecnológico descartável de hoje". Após esse momento, ambos tínhamos descoberto uma coisa: o vazio tem mais faces do que se imagina.