sexta-feira, 22 de maio de 2009

Liberdade

Nosso entendimento de nós mesmos ainda é extremamente infantil. Achamos que nos conhecemos bem, mas estamos sempre nos surpreendendo com a maneira com que nossas paixões nos impulsionam de modos diferentes. Fala-se numa pré-suposta liberdade, mas quão escravos somos sem nem nos darmos conta? John Zerzan disse certa vez, que "Nossa liberdade se limita a escolher entre as marcas A e B, esse é nosso conceito de liberdade". Alguém ainda mais feliz disse que nenhum escravo é pior do que aquele que pensa que é livre.
Diversas vezes vi pessoas questionando a ética, perguntando se alguém que faz tudo de acordo com definições morais não estão presas a seus códigos de conduta. Aparentemente, decidir racionalmente aquilo que se deve ou não fazer, para estas pessoas, é estar preso. Segue-se então um discurso sobre "vontades" que estão sempre ligadas às paixões e impulsos da mente. Bem, na minha sincera opinião, ninguém está mais acorrentado do que aquele que segue todos os impulsos da própria mente. Temos a ilusão de que nossa mente pertence a nós e somente a nós, mas ela pode ser mimada e tem praticamente "vontade própria". Obviamente, na definição psicológica isso não é nossa mente per se, mas a área dos desejos. Segundo uma representação antiga, a mente é como uma carruagem puxada por dois cavalos: Um domesticado e bondoso (a razão) e outro selvagem e teimoso (os desejos). Domar os desejos não é tarefa fácil, mas só assim se deixa de ser escravo.
Atender os desejos assim que eles aparecem não é liberdade. Afinal, é liberdade quando uma pessoa que quer emagrecer se empanturra de coisas que engordam? Afinal, a vontade racional desta pessoa é tornar-se magra, mas seus desejos, teimosos e imediatistas, pedem pelo prazer do mundo gourmet. Não por acaso, em várias passagens da filosofia oriental e algumas da ocidental, encontra-se a definição do "eu" como o maior inimigo que podemos encontrar ao longo de nossas vidas. Sim, isso é uma verdade, pois quem mimar o ego como se este fosse uma criança, passará constantemente pelas intemperanças da vida esperneando e esperando que alguém atenda suas demandas. Porém, ao contrário de nós mesmos, as outras pessoas não estão dispostas a sanar nossos desejos de pronto. Afinal, a ilusão do Samsara nos torna cegos para nossa condição verdadeira, criamos uma imagem do eu e dos outros - uma imagem fixa que não condiz com a realidade.
O Buddha, há 2,5 mil anos atrás, ensinou a necessidade de disciplinar o que chamava de "macaco louco". A mente indisciplina, para o Buddha, é como um macaco louco que pula de galho em galho, importunando outros animais e sempre insatisfeito. Como foi-me ensinado por meu Mestre, o Ven. Sunan Sunantho, o macaco louco que pula de galho em galho é presa fácil para um caçador. É facilmente avistado e morto com um tiro. O caçador é a representação básica das intemperanças da vida. A mente despreparada é presa fácil para elas, sujeitando-se à tristeza e desapontamento com freqüência.
Segundo O Iluminado, as paixões, apegos e similares, são a origem de todo o sofrimento no mundo. Sofrimento é uma tradução um tanto quanto mal-feita. No original, dukkha é tudo aquilo que provoca desconforto na mente, torna-nos inquietos, afins. Dukkha surge da ignorância, apego e raiva, emoções que desconcertam e tiram nosso equilíbrio. O Buddha receitou a solução, não extirpando os desejos (que sabe-se muito bem, na psicologia, é impossível e um processo extremamente prejudicial) nem mortificando o corpo, castigando-nos por conceitos abstratos de "pecado", mas disciplinando a mente para que se liberte da necessidade do apego.
"Na vida já há sofrimento demais para nos maltratarmos", disse O Buddha.

2 Comentários:

Às 29 de maio de 2009 15:39 , Blogger opheliacfollower disse...

Você escreve muito bem, cara, amei o post. Até tenho vontade de fazer alguma crítica construtiva, mas não estou num momento muito inteligente, então fica pra próxima. Ah, just for the record, eu sempre vejo seu blog, ok. Beijos com glitter!

 
Às 31 de maio de 2009 17:39 , Blogger globeleza disse...

eu gosto de como você é inteligente, por que quando não da mais pra fazer piadas sobre o que quer que seja, a conversa toma um rumo ainda melhor.

clever honey, you will teach me a whole lot of things!

vi.

 

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