sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Vento e a Fúria


Há um tempo atrás, tive uma conversa extremamente esclarecedora com meu primo Lucas, uma das pessoas que reconheço como mais sábias - daquelas que estão sempre pensando no bem, na cordialidade e na paz em primeiro lugar. Aposto que se ele chegar a ler isso, vai humildemente recusar o elogio. Haha
Continuando, falávamos sobre a raiva. Li um conto certa vez que utilizava uma metáfora maravilhosa: Um homem que ia mudar-se de oásis no deserto, resolveu carregar seu camelo com suas coisas. Apesar da quantidade excessiva de objetos pessoais, o camelo resistiu bravamente com todos os objetos em suas corcovas. Foi então que o homem, pronto para partir, lembrou-se de uma bela pena azul que havia herdado de seu pai, uma última lembrança. Resolveu levar a pena consigo e colocou-a em cima do camelo. As pernas do animal tremeram e ele despencou no chão, desmaiado. O homem pensou "Mas o camelo não aguentou apenas uma pena?".
Muitas vezes, ocorre assim conosco. Fazemos brincadeiras leves que podem ser ofensivas - em situações normais nem nos ofenderíamos, mas essa brincadeira pode ter sido a gota que fez transbordar o balde d'água. Por isso, é muito importante que se cultive a cordialidade e calma, sempre.
A conversa que tive com meu primo abordava esse tema - a raiva, especialmente a fúria, o momento de explosão. Meu primo me dizia que sendo a raiva natural, é difícil dizer até onde ela é prejudicial e até onde devemos nos permitir expressá-la. O questionamento era se é necessário reprimir esses impulsos.
Respondi meu primo com uma metáfora que considero válida: há várias formas em que o vento pode soprar. O furacão pode ser natural, mas sempre causa estragos. Se existem alternativas ao furacão, que possamos então ser suaves brisas. Quando deixamos o furacão superar nosso temperamento comum, somos fracos. O furacão pode parecer forte, mas os frágeis juncos que se curvam perante ele permanecem inertes, inalterados. O furacão pode parecer forte, mas forte é aquele que tem capacidade para construir, para resistir às pressões externas e ser sábio para selecionar aquilo que deve aprender.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Crescer, Adoecer, Encolher


Um dos sentimentos mais mistos e paradoxais que existem é a nostalgia. Não se sabe dizer se faz bem ou mal, se traz alegria ou tristeza... sabe-se apenas que lembramo-nos melancolicamente de momentos da infância, ou até de um passado mais recente. Mas o foco aqui é a infância. Muitos dizem ser a melhor parte da vida, mas a vida não tem partes nem é melhor ou pior. Ela simplesmente muda.
Quando estou prestes a agir de maneira que sei que não trará bons frutos, tento lembrar-me da criança que fui. Ser criança não exige nada - não exige carros, roupas bonitas, corpo sarado etc. Os adultos é que costumam transformar a infância num circo. Mesmo assim, ela continua intocável, ignorante às idiotices da vida adulta. A criança só exige amor e cuidados. O resto se resolve.
Quando eu era criança e adoecia, lembro-me de minha mãe fazendo todo aquele ritual - sopas, água de côco, biscoitos de polvilho, cama e às vezes gatorade! Cama o dia inteiro, desenhos animados, filmes repetidos e cobertores. Algumas vezes, uma corrida ao banheiro para regurgitar - sim, tinha uma parte ruim - mas de qualquer forma, a situação era bem diferente. Geralmente quando adoecemos, lembramos de como é bom estar saudáveis. Na infância, isso ocorre especialmente num dia de verão com seus amigos nadando na piscina ou na praia.
Sempre que adoeço, sinto como se estivesse voltando à infância. Não acontece muito do que acontecia quando eu era mais novo, especialmente porque moro sozinho. Mas quando adoecemos, parecemos nos dar o direito de ser mimados e ficarmos quietos.
Quando adoecemos, ficamos bem mais inofensivos, menos agressivos... A doença é um ótimo lembrete do quão frágeis somos.

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