Chuva e Frio
Há cinco minutos atrás, tocaram o interfone. Há 11 horas atrás também.
Hoje é um domingo, daqueles domingos de verão avessos. Dormi ontem de madrugada, como costumo fazer. Não sofro de insônia ou coisa parecida, meramente estou acostumado a dormir muito tarde se comparado ao horário normal de sono. Fui acordado às nove e meia da manhã pelo interfone escandaloso do prédio escuso em que moro. Levantei, ainda trôpego, para ver do que se tratava. Soltando um sonoro "alô" dos mais apáticos ao interfone, ouvi uma voz feminina do outro lado, falando sobre mensagem da bíblia e se eu teria algum tempo para ouvi-la. Agora, e isso é importante, não me entenda errado: já atendi várias vezes a esse tipo de apelo. Me interesso sinceramente pelo que os outros têm a dizer. Mas das vezes que atendi o chamado daqueles que vieram praticar proselitismo em nome de Jesus, ouvi palavras atrás de palavras sobre apocalipse, inferno, deus de amor, deus de justiça... e fiquei calado por todo o tempo. Não que eu não quisesse falar - adoro falar sobre religiões e tenho genuíno interesse por todas elas - o problema é que o proselitismo não se interessa pela sua opinião. O proselitismo quer que você se cale e aceite. O proselitismo é uma forma velada de dizer que sua crença é superior à crença alheia. O proselitismo, com o perdão da palavra, é uma merda.
Então, por essa e inúmeras outras razões, disse "hoje não, obrigado" cerca de três vezes para a mulher que não conseguia ouvir minha voz certamente estranha um momento após acordar. Há também o fato de eu conhecer muito bem a bíblia, obrigado. Minhas passagens preferidas são Mateus 16:26 e Lucas 22:10. Meu livro preferido é o apocalipse - isso mesmo, aquele que foi incluído na Bíblia depois da maior parte dos livros do Novo Testamente e que é provavelmente o livro mais simbólico de todos. E não, não acredito que o mundo vai acabar.
Almocei e depois de algum tempo um bom amigo passou por aqui (tocando o estridente interfone), chamando-me para aproveitar a chuva e caminhar sob ela até onde desse vontade. Fomos, até onde nada se via além de pasto. Vimos pássaros tão diferentes que mal acreditávamos ainda estar dentro dos limites urbanos. Quando voltamos no que pareceu ser uma caminhada de quarenta minutos (só a volta), já estávamos encharcados. Somando isso ao vento que soprava constantemente, o resultado foi único: frio. Voltei para casa, tomei um banho com o chuveiro na posição "verão" - o que não impediu o chuveiro de derramar água quente o suficiente para a melhor sensação de choque térmico que já tive em minha vida.
Foi então que, há cinco minutos atrás (agora dez), ouvi um interfone vizinho tocar. Um tempo de silêncio, sinal da primeira rejeição. O segundo escolhido foi meu interfone. Estridente como sempre, o primeiro sentimento que me evoca é a raiva. É inevitável, tenho a mesma sensação com o telefone. Ao interfone, um sujeito com a voz de maior auto-piedade que já ouvi, dizia estar morrendo de frio e estar encharcado, com a chuva que ainda cai lá fora. "Não quero dinheiro, não quero nada, só preciso de um agasalho, por favor moço!". Apesar de minha natureza desconfiada e do estranho e prolongado discurso, pensei comigo que há alguns agasalhos aqui que provavelmente nunca usei na minha vida, mesmo São João sendo uma cidade fria como é. Peguei então um agasalho, desci até o térreo e entreabri a porta no escuro, para ver um homem branco, de estatura baixa, barba por fazer e uma tatuagem com o nome "Jesus" no braço esquerdo. Minhas únicas palavras foram: "Aqui, o agasalho". O homem agradeceu e seguiu seu caminho.
Resultado: Em um dia, aprendi melhor com um pedinte do que com o proselitismo que, dizem por aí, vai "salvar o mundo". Eu espero, sinceramente, que gestos como esse substituam as conversas sobre um deus tirano e bipolar que ama seus filhos enquanto os atira no inferno.
Mulţumesc şi la revedere!
