Perdendo-se em Si
Recentemente, tenho notado meu descaso geral com tudo o que me circunda. Existe um incômodo no descaso, o desenvolvimento de um tipo de angústia que parece acusar-nos - uma pequena porção da consciência que nos diz que, de certa forma, nós estamos errados. O descaso é, além da falta de atenção plena, uma falta de motivação ou força motriz (ou talvez, má-aplicação da mesma). A começar, há meses que não escrevo sequer uma palavra neste blog que foi meu refúgio e meu espelho de reflexão íntima por tanto tempo (e também, como há pouco fiquei sabendo, já ajudou alguns de meus dois leitores e meio). Talvez esse descaso com a escrita seja reflexo de um grande movimento interior, já que é uma das minhas atividades preferidas. Porém, a maior dor que existe é sentir a angústia e ser incapaz de dissipar as sombras que a encobrem, - de onde ela vem? - turvando o bom-senso e humanidade. Noto também que venho me afundando cada vez mais no que chamo de preguiça existencial. O problema em deixar de se importar com sua própria existência, é que perdemos também a capacidade de moderá-la: quando não nos mediamos, damos espaço para que cresçam sentimentos mal-utilizados, que disparam para todos os lados e ferem os próximos. Lembro-me de ter assistido a um pequeno vídeo do Lama Padma Samten, cujo tema eram as Perfeições (Prajna Paramita), em que ele dizia que quando nos interiorizamos na meditação antes de ir à rotina, o dia-a-dia, muitas vezes perdemo-nos no caminho. Conseguimos breves quinze minutos de paz e tornamos ao mundo barulhento, nos irritamos e perdemos toda a capacidade de moderação e de estar atento a si. Perdemo-nos em nós mesmos.
Assim, cria-se espaço para a raiva, ignorância, arrogância e desrespeito. Dos quatro, cometi três, hoje. E isso posso dizer porque estava desatento, talvez achasse ainda mais deslizes se estivesse concentrado na maneira como agi. Comecei hoje com raiva por não ser atendido duas vezes no serviço da assistência técnica da internet que assino. Perpetuei esse ciclo por atenderem, na cantina, pessoas que haviam chegado bem depois de mim. Desrespeitei dois professores hoje com minha dispersão e conversa, mesmo que fosse a respeito da aula. Fui ignorante ao ver que não aceitava meus próprios erros. Agora, fica a pergunta: por que é que, só no momento de interiorização é que percebemos esses deslizes? Por que é tão difícil levar essa percepção ao mundo externo, à vida cotidiana? Há pouco, lembro-me de ter falado com um amigo meu que raiva e ódio consomem tempo demais - não temos tempo para elas. Perceber a inutilidade dessas emoções explosivas quando só damos vazão a elas para que firam, foi um breve momento de lucidez. Trazê-lo à prática, no entanto, é um movimento diferente e talvez mais complexo.
Uma das coisas mais importantes dentro do budismo e mais difíceis de se praticar em nossas vidas, é ter a capacidade de ultrapassar a mera aceitação intelectual. Perceber que há erros no mundo, em nossos métodos, é um processo relativamente simples. Porém, se compararmo-lo à prática, veremos que o segundo processo é demasiado complicado, sem a necessária preparação e compreensão. Por isso, deixo aqui este breve desabafo e uma tela de Rembrandt: "O Filósofo em Meditação" (tradução livre, não sei o nome em português, da tela). Lembremo-nos que devemos sempre estar atentos à transformação dos hábitos e da prática. Desejo boa sorte a todos nesse processo.

1 Comentários:
Esta "preguiça" tem afetado um número muito grande de pessoas. Há algum motivo para este incômodo geral, o ponto é descobrir que é.
Tiago
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